sábado, 17 de outubro de 2009

O aumento.

Esses dias estava assistindo televisão, mais precisamente, estava assistindo a Rede Globo, quando ouvi a seguinte chamada acompanhada da triste e dolorida música do Fantástico que nunca tarda em nos informar que somos pobres assalariados e que sim, iremos trabalhar na segunda-feira: "Não percam nesse domingo! O nosso consultor Max Geringer, dá dicas de como pedir aumento de salário para seu chefe!". Os olhos brilharam, o coração palpitou, as mãos suaram e eis que me questionei profundamente: "Por quê não?". A última entrevista havia sido um fracasso, talvez um aumento de salário me motivaria ainda mais. Esperei ansiosamente para ver aquela reportagem, assisti "A Turma do Didi", o filme inédito "Shrek", "Domingão do Faustão", futebol, "Domingão do Faustão - Parte II", até chegar o tão esperado Fantástico. Eram 21h33m, o telefone tocou:
-Carlitos! Beleza cara?
- Opa, aqui tudo pimba! E você, como está?
- Estou bem. Vamos tomar uma gelada para abrir a semana bem?
- Topo! Topo! Por quê não? Vamo cai pra dentro! (By Zina)

O quê seria de nós sem o livre arbítrio? Pássaros presos a uma jaula obscura incapaz de nos oferecer o doce gosto da liberdade. (Carlinhos Tsé - Administrador)

O livre arbítrio me fez pensar na Skol gelada ao invés de pensar no Max Geringer. Porém, na segunda-feira de manhã, fui para o trabalho fazendo uma avaliação das funções que eu exerço, do nível das minhas responsabilidades e do quanto eu era legal com as pessoas no trabalho, nunca ofendendo as mães delas, apenas parentes de níveis hierárquicos inferiores (dizem que hoje em dia uma boa relação interpessoal pode te levar a um futuro promissor, talvez o Lula explique melhor isso). Cheguei a conclusão de que merecia um aumento, e que hoje, segunda-feira de primavera, seria o grande dia.

Não consegui trabalhar na parte da manhã, na verdade eu nunca consigo, mas dessa vez era um "não conseguir" diferente sabe? Afinal, eu não consegui sequer dormir 30 minutos no banheiro como nas outras segundas. Só pensava no Max Geringer, na reportagem, na Skol, no bar, naquela loira de saia jeans, hum...voltando! Não deveria ter perdido aquelas dicas, seria algo valioso para o meu futuro profissional. Deveria ter juntado o útil ao agradável, pedindo para o garçom do bar que ligasse a televisão no Fantástico, ou então levando a Skol e a loira para a minha casa - segunda opção, óbvio. Não o fiz, estava perdido. Todavia, não desanimei e resolvi criar minhas própias "Dicas para pedir aumento de salário". Com a cara e a coragem redigi um e-mail ao diretor-presidente-dono da empresa em que trabalho, que por motivos pessoais não irei anexa-lo a essa postagem, afinal um dia poderei ser consultor do Fantástico e irei usa-lo em alguma coluna semanal (vocês conhecem a importância do sonho né?).

Segunda-feira, 14h57m, meu ramal tocou. Era ele, o "todo-poderoso", o "olho que tudo vê", o "chefe", o "patrão", o "dono dos meios de produção", o "senhor do engenho". Ligou pedindo para que eu comparecesse a sala dele, sala essa que mais parece o pólo norte, devido a temperatura do ar-condicionado.

- (toc toc) Com licença.
- Entra!
- Boa tarde chefe.
- Senta aí!
(Silêncio...)
- Gostaria de saber por que o senhor não veio trabalhar na sexta-feira.
- Olha chefe, o senhor sabe que estudo, e que batalho por um futuro profissional melhor, certo?
- E daí?
- Então, sexta-feira fui fazer uma entrevista em uma empresa lá na Berrini, daí que chegaria aqui muito tarde e achei melhor ir para a casa. (Sim sim, eu sei que mandei muito mal. Maldita sinceridade!)
- E o quê a empresa que você trabalha tem a ver com isso?
(Silêncio...)
- Eu sei que deveria ter avisado, mas achei melhor não falar nada para não polemizar.
- Ok. Como foi lá?
- Não me interessou, empresa sem expressão, continuo com vocês! (Mal sabia ele que o PC Farias havia me oferecido R$ 620,00/mês)
- Espero que isso não aconteça mais, afinal, se todo funcionário resolver faltar para ir a alguma entrevista isso aqui vira um caos!
- Ok. Desculpa chefe.
- Tudo bem, pode ir. Ah, o dia será descontado juntamente com o seu DSR.
(Não basta só humilhar né? A pessoa tem que pisar em cima.)
- Eu sei, conheço o procedimento.
- Mais uma coisa! Li o seu e-mail pedindo aumento salarial. No momento você tem alguma proposta de algum empresa?
- Não.
- Sendo assim eu deveria abaixar o seu salário né? Afinal, se ninguém quer te contratar é porquê estamos te pagando muito, certo?
(Lá se foi minhas dicas de como se pedir aumento de salário.)

"Max Geringer", nunca irei esquecer esse nome. Talvez a dica número um dele seria "Se você cometeu algum erro recente, espere para pedir o aumento, deixe que tal erro caia no esquecimento de seus superiores". Eu deveria ter falado que estava com diarréia, gripe A, ou que acordei pensando que sexta-feira era feriado. Mas não! Essa pequena anta falou com a maior naturalidade de que havia comparecido a uma entrevista de emprego. Vocês percebem que uma coisa leva a outra? A Megalomaníaca organização X da Berrini me faz um convite sedutor, eu compareço a entrevista, perco um dia de trabalho, descontam dois dias da minha folha e o meu pedido de aumento é ridicularizado. Para tudo existe uma ligação. É igual o cara que engravida a amante, daí a esposa com quem ele tem 3 filhos descobre e pede a separação e a amante também resolve largar ele. Restam 4 filhos, 4 pensões e nenhuma mulher. Claro que o meu prejuízo foi muito menor, mas é bom passar por isso, nunca irei atrás de uma amante, ou pelo menos tentarei não engravida-la.

Enfim, a saga continua. O fato de receber um "não" uma vez não quer dizer que você não possa receber um "não" outras vezes. E, sendo otimista, eu poderia ter sido demitido, ter perdido o meu emprego, ai sim eu teria me metido em uma fria, mas não foi isso que aconteceu. Não recebi o meu aumento, ganhei um volume maior de tarefas e não perdi o meu emprego. Se o saldo disso tudo foi positivo? Tirando o desconto na folha de pagamento, foi sim, afinal, tudo é uma grande lição.

Hoje estava assistindo a Globo News, e vi o estrago que a violência faz no Rio de Janeiro: Derrubaram um helicóptero, incendiaram doze ônibus e mataram quase vinte pessoas. Fico imaginando as modalidades das Olimpíadas de 2016: "Cem metros livres com barreira policial" e "Assalto com vara". Seremos ouro.

Até a próxima.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Administração X Medicina.

Se vivo, Sócrates afirmaria que o mundo é feito de "formas", porém, nos dias atuais, o mundo é feito com base naquilo que você "SE forma". Ex.:

Diálogo 1:
- Prazer, como você se chama?
- O prazer é meu. Me chamo Carlos... Carlinhos...
- O quê você faz?
- Faço medicina na Santa Casa em período integral.
- Puxa, que legal! É uma profissão e tanto. Seus pais devem se orgulhar.

Diálogo 2:
- Prazer, como você se chama?
- O prazer é meu. Me chamo Carlos... Carlinhos...
- O quê você faz?
- Trabalho como assistente financeiro e faço administração de empresas.
- Ah! Isso ai é coisa de quem não sabe o quer da vida né?
- Pois nesse momento eu sei muito bem o que quero (dar um soco no meio do seu nariz, mas irei me controlar).

Eis ai o clichê que assusta (e desmotiva) qualquer estudante de administração, economia, educação física e filosofia: "Isso é coisa de quem não sabe o que quer da vida". Ora, entendo que tais formações são abrangentes, mas o que leva as pessoas a nos tratarem como seres "universitariamente incapazes"? Estudamos, trabalhamos, nos esforçamos, somos criativos, pensadores, escritores, até mesmo críticos. Temos família, gostamos de nos divertir, consumimos coca-cola, usamos tênis nike e sonhamos em ter um Lamborghini Diablo preto com aquelas portas que abrem para cima. Temos amigos, frequentamos as mesmas baladas que qualquer universitário e, na maioria das vezes, não respeitamos a lei seca. Logo, somos pessoas normais, que estudam algo normal, tão normal quanto qualquer outro curso que se possa fazer, talvez com exceção daqueles que cursam Gestão em Mandinga e Umbandologia, mas esses fizeram a opção de serem exóticos, todavia, muitas vezes me sinto mais excêntrico do que o futuro Pai Cosme... Meu erro? Estudar administração.

Longe de mim querer ser um revolucionário, forçando pessoas a aceitarem idéias que partem de um grupo, no caso, os futuros administradores do nosso país. Não quero que daqui 50 anos os jovens usem camisetas com a minha foto e a administração se torne algo tão absurdo quanto o comunismo que presenciamos nos dias de hoje. Sequer tenho vontade de ser assassinado pelo exército americano, muito menos morar durante anos em uma selva cercado de homens barbudos e sem uma companhia feminina para me fazer alguns "agrados" (sei que isso soou machista e impuro, mas essa foi uma maneira "chula" de dar um papel importante para as mulheres na história do Che Guevara, afinal, deve ter sido duro viver tantos anos longe de uma companhia feminina, ah as mulheres...). Só queremos ser reconhecidos como "jovens universitários absolutamente capazes", dignos de cargos e salários altos. Talvez essa luta se assemelhe com a luta da (des)igualdade entre homens e mulheres em um mundo globalizado, onde elas (sempre elas) buscam reconhecimento, justiça, mais racionalismo e menos tradição. No caso delas a luta se torna um pouco mais fácil, afinal, as mulheres sempre conseguem aquilo que querem. Por exemplo, comecei a escrever esse texto, daí minha mãe pediu para eu tirar a toalha molhada de cima da cama, daí eu disse que iria tirar depois e ela disse suavemente: " Depois pode ser tarde devido ao grande estrago que o meu tamanquinho de madeira irá fazer na sua cabeça!", de maneira suave, quase que imperceptível, ela conseguiu me dobrar, fazendo com que imediatamente eu fosse retirar a toalha molhada de cima da cama. Ah as mães, sempre tão doces e amáveis...

Esses dias fui fazer uma entrevista em uma baita empresa que, por motivos de segurança, não irei revelar o nome, só posso dizer que se trata de uma gigante americana e com certeza eles podem acabar com a minha vida em um piscar de olhos (meus avós me criaram assim, acreditando que os americanos tem uma metralhadora apontada para cada habitante da terra, qualquer vacilo "bum!", você morre). O anúncio: "Empresa Multinacional contrata jovem administrador. Salários compatíveis com o mercado e sedutor* pacote de benefícios". Não titubeei (confesso que fiquei assustado quando essa palavra me veio a mente) e fui para a entrevista. Passei em frente a Daslu e não pude deixar de sonhar com o meu novo salário e com os ternos Armani e Hugo Boss que eu iria passar a usar. Avenida Engenheiro Luís Carlos (eu) Berrini. Tudo estava dando certo, até a avenida tinha meu nome, não poderia ser melhor, imagina eu falando para as pessoas: "Trabalho na megalomaníaca empresa X que fica na Av. Engenheiro Luís Eu Berrini" - perfeito! Chegando lá, a secretária que mais parecia a Ana Hickmann (sim sim, já comecei a fazer planos: terno Hugo Boss + Secretária + Jantar = um cara de sucesso) me atendeu prontamente com um sorriso branquíssimo, daqueles impossíveis de se ver aqui na zona leste. Entrei em uma sala onde o ar-condicionado daveria estar regulado para 15ºC, mas a sensação térmica era de 52ºC negativo. Vocês já perceberam que todo rico gosta de passar frio? Sei lá, temperatura baixa é sinônimo de poder, de status, de glamour. Agora entendo porquê o Norte e o Nordeste são regiões pobres, não tem frio lá. Continuando...
O gerente da área chegou e me cumprimentou, ele era a cara do PC Farias, aquele bigode não me enganava, aliás, dizem que o PC Farias não morreu, talvez ele trabalhe em alguma Multinacional Norte-Americana... e de pensar que descobri tudo isso sozinho, sensacional! Conversamos, demos risada, batemos um papo descontraído, tão descontraído que apenas minha perna direita estava dormente, quando na maioria das entrevistas que faço as duas ficam dormente. Ele disse que havia gostado de mim e que eu tinha o perfil para a vaga. Eu disse que havia gostado da empresa (mais da secretária) e que me interessava saber sobre as condições ($) de trabalho.

- Seiscentos e vinte reais, mais duzentos reais de ajuda de custo, convênio médico e plano odontológico. O que acha?

Na verdade eu achei tudo uma grande merda! Adeus Daslu, terno Armani, secretária dos dentes de neve, Av. Engenheiro Luis Eu Berrini... na mesma hora a dormência das pernas passou, e tudo o quê eu mais queria era dar um "roundhouse kick" na cara do PC Farias. A raiva era tanta que aquele bigode já não parecia semelhante só com o do nosso saudoso PC, pensava no Sarney, no Hitler, no Ratinho... um turbilhão de idéia sinistras e macabras me consumiam, foi nessa hora que falei:

-Muito bom senhor X, me interessei pela vaga, até quando posso entrar em contato para dar a resposta?

O que seria de nós sem a educação? Animais selvagens que agem por instinto, como o Michael Douglas naquele filme que ele dá uns pegas na Sharon Stone. Aliás, não sei se vocês sabem, mas o Michael Douglas sofre até hoje com alguns distúrbios sexuais. Talvez tenha a ver com o nome "Michael". Dica para os pais: Nunca dê ao seu filho o nome de Michael, a não ser que você o chame de "Michél" ou "Mikaél". Ah a educação, algo sempre tão precioso...

Não preciso dizer que não fiquei com a vaga, certo? O caminho de volta foi tortuoso. Quando eu verei aquela secretária novamente? Quando terei um salário digno para comprar um Armani? Será que a Receita Federal irá fechar a Daslu antes disso? E o PC Farias, morreu ou não morreu? Entendo que vivemos em um país de maioria pobre (miserável), mas isso não pode arrancar minha ambição e a minha vontade em querer conquistar algumas coisas, devo me espelhar em quem está no topo e não em quem está na base da pirâmidade, aliás, para aqueles que estão na base devemos oferecer a nossa ajuda, sempre buscando que as pessoas cresçam a medida que nós crescemos também. (Carlinhos de Calcuta - Administrador)

Escrevi isso para ilustrar a minha decepção. Como alguém pode oferecer R$ 620,00 para uma pessoa que paga quase R$ 800,00 de mensalidade? Aquela entrevista saiu mais cara do que um mês do meu trabalho naquela empresa. Talvez o fato de morar na Zona Leste, torcer para o Corinthians e ter a imagem de Nossa Senhora tatuada no braço (isso é ficção, só escrevi para apimentar) faça com que as pessoas desvalorizem um pouco a minha mão de obra. O governo gasta aproximadamente R$ 1.300,00/mês com um presidiário, ou melhor, o governo gasta aproximadamente R$ 1.300,00/mês com 99,5% da torcida do corinthians e uma empresa Multinacional quer me pagar a metade do que um presidiário ganha, tem sentido uma coisa dessa? Sem contar que na empresa eu teria que levar marmita (a comida viajaria por uns 50km todos os dias, seria o famoso rango São Silvestre) enquanto os bonitões que não fazem nada tem comida fresquinha todos os dias. Isso sim é desigualdade.

Termino por aqui não explicando o título "Administração X Medicina", entendam como uma metáfora. Mas a história não tem o seu final. Resolvi mudar o foco e pedir um aumento, as vezes santo de casa faz milagre, e isso eu irei relatar na próxima postagem.

Espero que tenham gostado e obrigado em perder seu tempo lendo esse conteúdo tão "incultural".

Bejomeliguem.

*Sedutor: adj. e s.m. Que ou aquele que seduz; tentador. - Certa vez fui em uma despedida de solteiro e na porta da "Casa de Criação de Moças Sexualmente Ativas" (não frequento esses lugares, mas me disseram que era em um paintball, a diferença é que nesse se joga apenas com duas bolinhas) tinha uma placa com os dizeres: "Não Percam: Veruska Bombom! A gata que mais parece um sonho de valsa...totalmente sedutora!", hoje entendo de onde os caras tiraram o anúncio da vaga.